Antes de começar a ler, espere a música tocar... também faz parte da mensagem.
"A maior parte das gaivotas não se querem incomodar a aprender mais que os rudimentos do voo, como ir da costa à comida e voltar.
Para a maior parte das gaivotas, o que importa não é saber voar, mas comer. Para esta gaivota, no entanto, o importante, não era comer, mas voar.
Mais que tudo, Fernão Capelo Gaivota adorava voar.
Como veio a descobrir, esta maneira de pensar não o fazia muito popular entre as outras aves.
Até os próprios pais se sentiam desanimados ao verem que Fernão passava os dias sozinhos, a experimentar, fazendo centenas de voos rasos."
Na adolescência, como quase todos nós, fui como Fernão Capelo Gaivota, o personagem do livro de Richard Bach, à descoberta da melhor maneira de voar. E o meu voo, deu-se pela descoberta da leitura. Para mim, como para Fernão, os livros não serviam apenas para aprender o básico na escola, eram muito mais do que isso, faziam-me voar, imaginar outros mundos, outros rostos e sobretudo aprender, aprender e aprender cada vez mais... Passava horas e dias a fio, sozinha a "voar"com os livros. Qualquer tema servia, lia tudo o que me caía às mãos, panfletos, revistas, livros...A biblioteca era o melhor sítio do mundo. É claro que essa maneira de ser não me fez muito popular entre as outras "aves" e inclusive entre os membros da família, que me achavam um pouco esquisita, mas a atracção pelo conhecimento era mais forte do que eu...
"Vou sentir a tua falta, Fernão - foi tudo quanto disse.
Henrique, que é isso? - exclamou Fernão, reprovador - não sejas tolo! Afinal, que tentamos nós aperfeiçoar todos os dias?
Se a nossa amizade está dependente de coisas como o espaço e o tempo, quando finalmente os ultrapassarmos, teremos destruído a nossa irmandade.
Ultrapassado o espaço, tudo o que nos resta é Aqui. Ultrapassado o tempo, tudo o que nos resta é Agora. E entre o Aqui e Agora, não achas que nos podemos encontrar uma ou duas vezes?"
A verdade é que eu não era muito popular na escola, não jogava bem ao voleibol, não ligava patavina aos ídolos da moda, não usava as sapatilhas de marca, mas tinha amigos, poucos, mas tinha...
E as nossas conversas eram muito filosóficas ou não...Gostávamos de traduzir as letras do John Lennon, escrevendo-as em cadernos com recortes, ou interpretar as poesias do Vinicius, ou discutir por uma causa humanitária: a seca no Nordeste Brasileiro, a desigualdade social, aprender os sinais do alfabeto dos surdos, coleccionar selos, papel de carta, tantas coisas...e tudo era muito intenso, pois as hormonas nos faziam fervilhar, como um rebentar de folhas na primavera ou como uma gaivota a descobrir o voo. E embora, eu tenha perdido o total contacto físico(o Aqui) com esses amigos, foram estes momentos que ficaram e que formaram o ser o que sou (o Agora), e por isso estou sempre a encontra-los na curva de um voo...
Na adolescente que fui e que fomos todos(e que serão os nossos filhos, netos, sobrinhos...)não passávamos de gaivotas que queriam aprender a voar, que "fugiram"da gaiola dourada da infância para descobrir o mundo...As maneiras de voar são muitas e muitos são os que se atrapalham pelo caminho. Com amor, compreensão e confiança o voo é mais fácil e já que por lá passamos, a lembrança não pode ser apagada, temos que ser aquele que espera, aquele que observa o voo daqueles que estão a aprender e quem sabe aprender também uma outra maneira de voar...porque afinal estamos sempre em eterna evolução.
Bem, depois de uma mensagem tão filosófica, e apesar de gostar de voar, também gosto de comer, por isso a receita de hoje leva sardinha, para uma gaivota esfomeada e que amanhã vai a um piquenique:
Bolo de sardinha
Para a massa, bater no liquidificador, os seguintes ingredientes:
12 colheres de sopa de farinha de trigo
3 ovos inteiros
1 chávena de chá de óleo
1 colher de chá de sal
2 colheres de sopa de fermento
2 chávenas de chá de leite
Deitar metade da massa numa forma de bolo inglês untada e enfarinhada. Por cima deitar o recheio, constituído por cebola cortada às meias luas, 1 lata de filetes de sardinha em azeite(sem pele ou espinhas) e salsa picada. Deitar o resto da massa. Levar ao forno 180º C até cozer, cerca de 30 minutos.
E foi esta a minha participação na Blogagem Colectiva Fases da Vida: Adolescência