Resolvi enredar-me nesta
Teia Ambiental, e não poderia ser de outra forma, depois do convite irrecusável da Rute, do blogue “ambiactivo”
Publicar para Partilhar. A organização desta bela iniciativa partiu da
Flora e do
Gilberto e existe desde Maio/2010 em todos os dias 7 de cada mês. Este tema toca-nos a todos, inconscientes ou conscientes de que o modo de vida que levamos afecta directamente a existência do nosso
grande lar terrestre.
A inspiração para esta
Teia surgiu-me através de uma garrafa de vinho (não foi a beber, ah…) e como moro em Santa Maria da Feira, o contacto com pessoas ligadas à industria transformadora da
cortiça é frequente.
Normalmente associamos o crescimento económico a um processo de destruição do meio ambiente pela utilização desmedida das matérias-primas naturais, gerando inúmeros problemas (poluição, desertificação, alterações climáticas) geralmente com maior ocorrência nos países pobres.
Neste caso em especial, tal não acontece e pelo contrário a manutenção da floresta de sobreiros em bom estado é essencial para a sobrevivência desta indústria de grande importância económica para Portugal.
Resolvi pesquisar para saber um pouco mais sobre esta actividade e dar-vos a conhecer um exemplo positivo de aproveitamento de uma dádiva da natureza, que além de gerar um grande desenvolvimento económico, contribui para a preservação de outras espécies vegetais e animais associadas.
O que é a cortiça?
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| Imagem retirada do site www.cm-grandola.pt |
A cortiça é a casca do sobreiro (Quercus Suber L), uma árvore nobre com características muito especiais e que cresce nas regiões mediterrânicas como Espanha, Itália, França, Marrocos, Argélia e, sobretudo, Portugal, onde existem mais de 720 mil hectares(1 hectare=10000m2) de montado de sobro.
É uma árvore espantosa, de grande longevidade e com uma enorme capacidade de regeneração. Consegue viver em média 150 a 200 anos, apesar dos muitos descortiçamentos que lhe fazem ao longo de sua existência: cerca de 16 intercalados por períodos de nove anos.
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| Imagem retirada do site www.portugalambiente.com |
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| Imagem retirada de Wikipedia |
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Para além do seu valor ecológico, o sobreiro é uma árvore notável, na medida em que todos os seus componentes têm utilidade económica. Eis alguns exemplos:
-A bolota, fruto do sobreiro, além de ser utilizada para efeitos de propagação, também serve como forragem para animais e fonte de óleos culinários;
-As folhas da árvore são utilizadas como forragem e fertilizante natural;
-O material resultante da poda das árvores e os exemplares mais decrépitos fornecem lenha e carvão vegetal;
-Diversos produtos químicos são produzidos a partir dos taninos e dos ácidos naturais contidos na madeira.
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| Imagem retirada do site www.apcor.pt |
Mais de cinquenta por cento da casca do sobreiro (cortiça) é utilizada no fabrico de rolhas, incluindo as de cortiça natural para garrafas de vinho, as de champanhe, as técnicas, as rolhas para vinhos de alta graduação e espirituosos, e pequenas rolhas utilizadas para fins diversos (perfumaria, medicamentos). Num processo de transformação verticalmente integrado, a utilização da cortiça não gera resíduos. Os desperdícios de cortiça provenientes do processo de produção de rolhas são reduzidos a granulados e reutilizados no fabrico de rolhas técnicas, de aglomerados industriais, de revestimentos de solos, de isolamentos, de utilidades decorativas, acessórios, roupas… Até mesmo as finas partículas de pó de cortiça são recolhidas e usadas como combustível. A cortiça pode ainda ser combinada com outros materiais, como a borracha e a fibra de coco.

A cortiça possui qualidades únicas e inigualáveis: muito leve, impermeável a líquidos e a gases, elástica e compressível, um excelente isolante térmico e acústico, combustão lenta e muito resistente ao atrito. É um material cem por cento natural, reciclável e biodegradável, três atributos imprescindíveis numa sociedade como a actual que se deseja cada vez menos poluída e amiga do ambiente.
O GREEN CORK é um Programa de Reciclagem de Rolhas de Cortiça desenvolvido pela Quercus, em parceria com a Corticeira Amorim, a Modelo/Continente e a Biological. Tem como objectivo não só a transformação das rolhas usadas noutros produtos, mas, também, com o seu esforço de reciclagem, permitir o financiamento de parte do Programa “CRIAR BOSQUES, CONSERVAR A BIODIVERSIDADE”, que utilizará exclusivamente árvores que constituem a nossa floresta autóctone, entre os quais o Sobreiro, Quercus suber.
O montado
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| Imagem retirada de www.apcor.pt |
Tal como os vinhedos do vale do Douro ou a mata Atlântica no Brasil, as florestas de sobreiros são um ecossistema muito particular, de delicado equilíbrio e que subsiste apenas na bacia mediterrânica. Considerado património nacional português, há séculos que o montado de sobro é legalmente protegido (Decreto-Lei n.º 169/2001), sendo proibido o seu abate e incentivada a sua plantação e exploração, uma iniciativa em que Portugal foi pioneiro.
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| Imagem retirada de www.apcor.pt |
Para além da sua importância económica, o montado assegura ainda uma grande biodiversidade natural, incluindo fauna selvagem, pastagem e arbustos de ervas aromáticas. Entre os animais mamíferos encontrados nas florestas de sobreiros incluem-se lebres, doninhas, lobos, genetas, javalis, veados e (ainda) alguns linces ibéricos, uma espécie quase em extinção e que é urgente proteger. As florestas de sobro da Península Ibérica constituem também o habitat ideal para milhões de aves, tais como o Falcão Peneirereiro, o Mocho Galego, o Picanço Real, Cegonhas-pretas, Águias ibéricas, milhafres, Abutres negros, Piscos, Tordos, Tentilhões e Pica-paus, bem como para as 60.000 Garças-reais que anualmente chegam do norte da Europa.
Um super-herói vegetal:O “Assobiador”
O “Assobiador” é o mais antigo e mais produtivo sobreiro existente no mundo, assim chamado devido aos numerosos pássaros canoros que o habitam. Foi plantado em 1783, perto da vila de Águas de Moura, na região portuguesa do Alentejo. O “Assobiador” tem mais de 14 metros de altura e 4,15 metros de circunferência. A sua primeira extracção teve lugar em 1820, e desde então já lhe foram feitas mais de 20 extracções. A extracção de 1991 produziu mais de 1200kg de cortiça - mais do que a produção registada pela maioria das árvores ao longo de toda a sua vida. Esta extracção, sozinha, deu origem a mais de 100.000 rolhas para garrafas de vinho. A última extracção, realizada em Junho de 2000, foi menos produtiva, conseguindo ainda render uns impressionantes 650 quilogramas, o equivalente a 10 vezes a produção de qualquer sobreiro vulgar.
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| Imagem retirada de http://lugardoconhecimento.wordpress.com |
Se quiser
saber mais sobre este tema:
Bem, agora começo a ter fome! E já que pelo menos eu e uns quantos que estão a ler isto, não temos o privilégio de fazer um piquenique à sombra de um sobreiro, num lindo montado alentejano, deixo cá uma receita da gastronomia desta região, e sempre podemos voar com a imaginação e fazer de conta que estamos nesta belíssima zona de Portugal, a comer uma deliciosa fatia de :
Bolo de requeijão à moda de Viana do Alentejo
Ingredientes:
250grs de requeijão
150grs de farinha de trigo
200grs de açúcar
50grs de manteiga
4 ovos inteiros
raspa de limão
1 colher (chá) de canela em pó
1 colher(sobremesa) de fermento em pó
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| o "nosso" requeijão |
Preparação:
Passar o requeijão por um passador de rede (peneira).
Bater os ovos com o açúcar até ficar uma massa esbranquiçada e volumosa.
Juntar a canela, a manteiga derretida (mas não quente) em fio, a raspa de limão e o requeijão, aos poucos, e alternar com a farinha em chuva.
Envolver bem até ficar homogéneo e misturar o fermento com movimentos leves.
Colocar o preparado numa forma untada e enfarinhada e cozer no forno 160º por mais ou menos 30 minutos. Verificar com o palito.
Saudações ambientais a todos! E até a próxima Teia, no dia 7 de Maio!