Quando resolvi participar nesta blogagem colectiva, sabia perfeitamente quais as pessoas da minha vida que fariam parte do Nascimento e desta Melhor Idade. Não considero que ambas sejam o início e o fim desta história, porque esta história não tem um ponto de partida e de chegada, assim como não conseguimos achar o começo e o fim de um círculo. É um circulo que não para de girar, como a vida que não para de correr escoando-se entre as gerações, indo e voltando... No Nascimento foi a vida da minha filha que se iniciou, entrelaçada pela vida da sua bisavó, que não conhecerá materialmente, mas que fará parte de sua vida indubitavelmente.
Nesta fase, as atenções vão para a pessoa que participou da minha vida desde o início dela até agora, a minha querida avó materna, Luisa. Corporalmente esteve comigo até a juventude, encheu a minha infância de cor, era a única pessoa que tinha paciência para a minha energia, adorava ficar temporadas em sua casa, porque deixava-me voar. Vivia atrás dela, nunca me lembro de ouvir um grito de sua boca, ou uma palavra mais dura, até a sua expressão era serena, e passados alguns anos, concluí eu, até um pouco triste.
A minha avó tinha mãos de fada, costurava e bordava muito bem, e foi com esses dotes que ajudou a sustentar os 5 filhos quando meu avô emigrou para o Brasil nos anos 50. Em 1960, todos lá se reuniram e ainda nasceu a minha tia mais nova. Na bagagem, a minha avó levou a máquina de costura, fiel companheira, que já tinha sido de sua mãe. Quando eu era pequena esta máquina fez as delícias de muitas brincadeiras, pois a minha avó deixava-me costurar nela e fazia-me também lindos vestidos para as minhas bonecas. Uma vez presenteou-me com um urso de peluche que ela própria fez. Por causa disso a paixão pelos trabalhos manuais ainda faz parte de minha vida.
Lembro-me também de sua doçura e da tristeza que sentia por ter perdido uma filha, que morreu de parto, quando eu tinha 4 anos e das saudades que tinha da filha que foi morar para outro país, não gostava de se separar da família e tinha enormes saudades de Portugal. Uma das frases que ouvia de suas conversas com os adultos era: Os meus ossos não ficam cá, voltarão para a minha terra. Era uma profecia, porque passados 2 anos de regresso à Portugal, ela faleceu, adormeceu e nunca mais acordou, foi-se como um anjo. Eu ainda morava no Brasil, a tristeza foi muita, mas nunca senti a separação de facto, porque sinto que ela, de alguma forma está sempre ao meu lado.
Tanto a máquina como o urso até hoje estão comigo, como talismãs que eu não troco por nenhum ouro, não como objectos que me façam lembrar dela porque disso eu não preciso, sinto sempre a sua presença, e nos instantes mais delicados e críticos tenho mesmo a sua ajuda. Num dos momentos mais importantes da minha vida, senão o mais, o nascimento da minha filha, ela lá estava, vou contar-vos como foi e como estamos ligadas:
O meu avô, que conta hoje com a bela idade de 94 anos, e que se chama Luís, sempre foi muito calado, embora não fosse autoritário, pelo menos desde que me conheço por gente, simplesmente não dialogava muito na fase da sua maturidade, penso que era o fruto da época dura em que viveu. Agora, gosta de contar as histórias do seu tempo de juventude.
No mês anterior ao nascimento de minha filha, há quase oito anos atrás, foi o baptizado de minha sobrinha e a festa foi em casa de minha mãe. Enquanto todos se afadigavam nos preparativos, eu, com a minha barriga enorme de 8 meses e o meu avô, com o peso dos anos, estávamos como reis, no meio da barafunda, aproveitando, sem culpas uma bela cavaqueira. É claro que o tema da conversa acabou por ir parar no assunto do momento: o meu bebé que iria nascer em pouco tempo. O meu avô então contou a história incrível do nascimento dos seus 6 filhos.
Naqueles tempos, os filhos nasciam em casa, com a ajuda de uma parteira. A minha mãe foi a primeira filha, nascida com a habitual ajuda, mas a minha avó ficou traumatizada com a experiência e a partir daí, segundo o meu avô, nunca quis que mais ninguém a ajudasse a ter os filhos, teve os restantes 5 filhos sozinha, inclusive a última, que nasceu no Brasil, nos anos 60, onde já era comum a recorrência aos hospitais. Chegada a hora, ela pedia para o meu avô aquecer água, trazer lençóis, arranjar uma tesoura desinfectada e a roupinha do bebé e ia para um quarto isolado, não queria ninguém por perto. Quando o meu avô regressava do trabalho já tinha o bebé nos braços e assim foi com todos eles. Eu ouvi incrédula, estes factos da vida de minha avó, sem nunca conceber que por trás daquele doce anjo, houvesse uma leoa corajosa e por outro lado nunca imaginei o meu avô a narrar estes factos, dada a sua personalidade tão reservada.
É claro, que depois disso, o pouco medo que tinha da hora do parto, dissipou-se por completo, pois ao imaginar que naqueles tempos a minha avó sozinha teve os seus filhos todos, eu, com toda a tecnologia e apoio não tinha qualquer razão para ter receio e o meu parto correu às mil maravilhas, foi rápido, nem houve tempo para a anestesia epidural, que não fez falta nenhuma. O meu anjo nunca me abandonou!
Quantas vezes, mais jovem, em momentos de solidão, abraçava-me ao urso e tudo parecia melhorar.
Existem algumas ligações entre nós, poderão ser coincidências, mas servem para reforçar os laços que nos unem, como se fizéssemos parte de algum clube privado:
A minha avó faz anos à 21 de Fevereiro, seu nome começa com a letra L.
O meu marido, faz anos à 21 de Fevereiro, seu nome começa com a letra L.
Eu nasci à 21 de Outubro, o meu nome não começa com L, mas o diminutivo, que uso, apenas após conhecer o meu marido, pois foi ele que começou a tratar-me assim, começa também com a letra L.
A nossa filha nasceu à 21 de Outubro, e o seu nome também começa com a letra L, e foi escolhido por nós, sem nunca termos ligado estes factos, apenas pelo nome nos agradar a ambos.
Coincidência ou não, acho interessante este elo que nos entrelaça uns nos outros.
Esta-me a custar chegar ao fim desta colectiva, como quando estamos a chegar ao fim de um livro que adoramos e lemos devagarinho para que não acabe depressa...Aqui quero escrever muito para não mais acabar esta viagem dentro de mim, este revoltear de sensações, que trouxe alegrias, tristezas, saudades, tantos sentimentos que me fizeram olhar para dentro, voltar a senti-los, doutra forma, e crescer, e voar bem alto, novamente.
Obrigada, queridas amigas(Rute, Gina e Rosélia), por esta ideia maravilhosa e por eu ter feito parte dela! Deixo-vos esta flor, que colhi hoje com a minha máquina, especialmente para vocês!
Outra herança que minha avó me deixou foi a paixão pela culinária e foi com ela que tive as primeiras experiências, nesse campo, de que me lembro. Nunca mais me esqueço de uma vez que fiz um pudim instantâneo de sabor a morango, cor de rosa, lindo, numas férias de Verão.
Os meus almoços de domingo, na infância, eram sempre em sua casa, e eram uma festa, com muita gente reunida à mesa e uma comida deliciosa preparada com carinho por suas mãos de fada.
Ainda hoje, faço uma receita de arroz de forno, desses tempos, que é um verdadeiro sucesso, cuja receita já postei
AQUI. Mas como hoje é segunda feira, e como prometi
AQUI, será sem carne. Esta postagem, terá portanto, cenas dos próximos capítulos, pois o meu jantar, será este arroz em versão vegan! Por isso, peço-vos paciência e prometo colocar a receita e fotos logo à noite!
Esta foi a minha participação no 6º tema, a Melhor Idade, da Blogagem Colectiva Fases da Vida.